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Anafilaxia: Reconhecimento, Tratamento de Emergência e Prevenção

Introdução

A anafilaxia é a forma mais grave de reação alérgica, constituindo uma emergência médica potencialmente fatal que requer tratamento imediato com adrenalina intramuscular. A incidência de anafilaxia na Europa é estimada em 1,5 a 7,9 por 100 000 habitantes/ano, com tendência crescente nas últimas décadas, segundo a European Academy of Allergy and Clinical Immunology (EAACI).

Em Portugal, os dados do registo europeu de anafilaxia indicam que os alimentos, os medicamentos e as picadas de himenópteros (abelhas e vespas) são as causas mais frequentes. A Direção-Geral da Saúde (DGS) publicou uma norma clínica sobre abordagem da anafilaxia, reforçando a importância do reconhecimento precoce e da administração imediata de adrenalina como tratamento de primeira linha.

Reconhecimento e Sintomas da Anafilaxia

A anafilaxia é definida como uma reação alérgica sistémica grave de início rápido, que envolve dois ou mais sistemas orgânicos. Os sintomas cutâneos (urticária generalizada, angioedema, eritema) estão presentes em 80 a 90 % dos casos, mas a ausência de manifestações cutâneas não exclui o diagnóstico.

Os sintomas respiratórios incluem dispneia, sibilância, estridor laríngeo, rouquidão e sensação de aperto na garganta. Os sintomas cardiovasculares compreendem hipotensão, taquicardia, tonturas e síncope. Os sintomas gastrointestinais — náuseas, vómitos, dor abdominal intensa e diarreia — podem ser os únicos sintomas em anafilaxia alimentar.

A World Allergy Organization (WAO) define critérios clínicos para o diagnóstico de anafilaxia: início agudo com envolvimento cutâneo-mucoso associado a compromisso respiratório e/ou cardiovascular; OU dois ou mais sistemas afetados rapidamente após exposição a um alergénio provável; OU hipotensão após exposição a alergénio conhecido. A rapidez de evolução é um sinal de gravidade — a anafilaxia fatal pode progredir em minutos.

Tratamento de Emergência da Anafilaxia

A adrenalina (epinefrina) intramuscular é o tratamento de primeira linha e deve ser administrada imediatamente, sem esperar por agravamento dos sintomas. A dose para adultos é de 0,3 a 0,5 mg (0,3-0,5 mL de solução 1:1000) injetada na face anterolateral da coxa. Nos doentes com auto-injetor (EpiPen 0,3 mg ou Jext 0,3 mg), a administração deve ser feita através da roupa se necessário.

A adrenalina atua em múltiplos recetores: os recetores alfa-1 causam vasoconstrição (revertendo a hipotensão), os recetores beta-1 aumentam a frequência e contratilidade cardíaca, e os recetores beta-2 causam broncodilatação e reduzem a libertação de mediadores inflamatórios. Não existe contraindicação absoluta à adrenalina na anafilaxia — o risco de não tratar é sempre superior ao risco de administrar adrenalina.

Após a administração de adrenalina, o doente deve ser posicionado em decúbito dorsal com elevação dos membros inferiores (posição de Trendelenburg), exceto se tiver dificuldade respiratória (posição semi-sentada). A adrenalina pode ser repetida a cada 5-15 minutos se não houver melhoria. O Centers for Disease Control and Prevention (CDC) e o NICE recomendam observação hospitalar durante pelo menos 6 a 12 horas após anafilaxia, devido ao risco de reação bifásica (recorrência dos sintomas horas após resolução aparente).

Prevenção e Seguimento Após Anafilaxia

Todo o doente que sofreu um episódio de anafilaxia deve ser referenciado para consulta de alergologia para identificação do agente causal, educação do doente e prescrição de auto-injetor de adrenalina. A EAACI recomenda que os doentes transportem dois auto-injetores de adrenalina e recebam treino prático de utilização.

O plano de ação personalizado para anafilaxia é um documento escrito que identifica os desencadeantes conhecidos, os sintomas de alerta, as instruções de administração de adrenalina e os contactos de emergência. Este documento deve ser partilhado com familiares, escola (no caso de crianças), local de trabalho e médico de família.

A imunoterapia com veneno de himenópteros é altamente eficaz na prevenção de anafilaxia por picada de abelha ou vespa, com taxa de proteção de 95 a 98 % após tratamento de 3 a 5 anos. A Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC) disponibiliza imunoterapia com veneno em centros especializados. Para alergias alimentares graves, a dessensibilização oral está em desenvolvimento para o amendoim e outros alergénios.

A pulseira ou medalhão de identificação médica é recomendada para doentes com risco de anafilaxia, indicando a condição alérgica e a necessidade de adrenalina em caso de emergência. A DGS recomenda que todos os profissionais de saúde estejam preparados para reconhecer e tratar a anafilaxia, independentemente da especialidade.

Na Médico na Net, a equipa clínica oferece avaliação de episódios de anafilaxia, prescrição de auto-injetores de adrenalina, elaboração de planos de ação personalizados e referenciação para investigação alergológica.

Pessoa em teleconsulta médica a relatar sintomas de anafilaxia

Perguntas frequentes (FAQ)

Sim. É potencialmente fatal se não tratada imediatamente com adrenalina. A morte pode ocorrer por colapso cardiovascular ou asfixia. O tratamento precoce é determinante para o prognóstico.

Não. Os anti-histamínicos aliviam sintomas cutâneos mas não tratam. A adrenalina intramuscular é o único tratamento de primeira linha eficaz.

Os auto-injetores de adrenalina têm validade de 12-18 meses. Devem ser armazenados à temperatura ambiente, protegidos da luz solar. Verifique regularmente a data de validade e substitua antes de expirar.

Sim. Sem identificação e evicção do alergénio causal, o risco de recorrência é elevado. Além disso, 1-20% dos episódios têm reação bifásica (recorrência horas depois). Por isso a observação hospitalar é importante.

Os corticosteroides podem ajudar a prevenir reações bifásicas tardias, mas não têm efeito imediato na anafilaxia aguda. Não substituem a adrenalina como tratamento de primeira linha.

Conclusão

A anafilaxia é uma emergência médica que requer reconhecimento imediato e tratamento com adrenalina intramuscular sem demora. A identificação do agente causal, a educação do doente e familiares, a prescrição de auto-injetores de adrenalina e a elaboração de planos de ação personalizados são essenciais para a prevenção de novos episódios. A imunoterapia com veneno de himenópteros é altamente eficaz na prevenção de anafilaxia por picadas de abelhas e vespas.

Referências

EAACI. Guidelines on Anaphylaxis

Direção-Geral da Saúde (DGS)

World Allergy Organization (WAO)

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Dra. Alexandra Azevedo

Formação: Universidade de Barcelona
Nº ordem dos médicos: 71409

Biografia

A Dra. Alexandra Azevedo formou-se em Medicina na Universidade de Barcelona em 2015, onde posteriormente se especializou em Medicina Geral e Familiar. Durante a sua formação, desenvolveu um forte interesse pela abordagem à dor crónica, tendo realizado um mestrado integrado em Medicina e Cirurgia com investigação na Clínica no controlo da Dor. A sua experiência profissional inclui vários anos de prática clínica em Espanha, nomeadamente na Catalunha, onde teve contacto com uma grande diversidade de patologias e desafios, tanto na urgência, como nos cuidados de saúde primários.

Atualmente, exerce como médica de família na ULS Braga. Já integrou a equipa da urgência médico-cirúrgica do Hospital de Vila Nova de Famalicão e já colaborou como professora convidada na Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Minho, lecionando anatomia e fisiologia do sistema circulatório, respiratório e digestivo.

Os seus principais interesses clínicos incluem a urgência médica, a dor crónica, a depressão e a ansiedade, bem como a medicina preventiva e o controlo de fatores de risco vasculares. Dedica-se também à consulta antitabágica e à consulta de perda de peso, ajudando os seus pacientes a adotar hábitos de vida mais saudáveis. A sua abordagem ao cuidado baseia-se numa visão holística, considerando a saúde como um equilíbrio entre o bem-estar físico e psicológico.

A Dra. Alexandra distingue-se pelo seu humanismo e pela capacidade de oferecer soluções rápidas e eficazes para problemas menores, garantindo que os seus pacientes se sintam bem acompanhados. No Médico na Net, vê uma oportunidade de levar os cuidados de saúde a mais pessoas de forma acessível e conveniente.

Apaixonada por música e viagens, adora conhecer diferentes culturas e estilos de vida, o que enriquece a sua visão do mundo e a sua prática médica. Para ela, a medicina não é apenas uma profissão, mas um verdadeiro compromisso com o bem-estar das pessoas que acompanha. Como gosta de dizer: “A saúde é o equilíbrio entre o bem-estar físico e psicológico.